Giovanni Battista
CASTAGNETO 1851-1900

AS FALSIFICAÇÕES

Castagneto, o nosso admirável pintor de marinhas, o incorrigível boêmio que dissipou o talento e a vida com a mesma risonha facilidade do conde de Monte Cristo dissipando os seus milhões e com a mesma natural indiferença do duque de Buckingham deixando cair as pérolas do manto na corte de Luiz XIII, – Castagneto acaba de ter a mais fúlgida das consagrações post mortem. Descobriu-se agora que há uma grande quantidade de marinhas, assinadas por esse pintor, e que não passam de cópias, multiplicadas e nem sempre fiéis, dos seus quadros. Castagneto está sendo "falsificado"!

Já o século passado mereceu o nome de "século das falsificações". O século atual, que apenas começa a decorrer, há de prezar esse legado glorioso, e aperfeiçoar, na medida das suas forças, a arte da fraude. Falsifica-se tudo: o que se come, o que se bebe, os tecidos com que fazemos as nossas roupas, os remédios com que damos combate às nossas moléstias, os objetos de arte com que encantamos os nossos olhos, a formosura das mulheres, a robustez dos homens, a ingenuidade das crianças, – tudo! Até o ar, a luz e a água, – esses três dons gratuitos da generosa Natureza, – não tardam a ser falsificados. E, daqui a pouco, um Edison qualquer, falsificando a Vida, apresentar-nos-á um autômato perfeito, um boneco maravilhoso, que respire, ande, coma, digira, durma, gesticule, fale, sinta, pense ... e ame! – e haverá fábricas de homens artificiais, sans garantie du gouvernement...

Castagneto acaba de ter uma radiante consagração. Só se falsifica o que é bom e o que vale dinheiro. Ninguém falsificou ainda a areia da praia, – que se obtém de graça; e ainda não há mulher moça que embranqueça os cabelos e encha de rugas a face para parecer velha, como ainda não há homem superior que esconda a inteligência para parecer estúpido; mas, se algum dia a areia da praia, a velhice e a estupidez tiverem cotação no mercado, a areia monazítica far-se-á areia comum, a adolescência disfarçar-se-á em caduquice, e o gênio desandará a zurrar... Por ora, o que se falsifica é o que é bom, e o que vale dinheiro: é o ouro, é o diamante, é a mocidade, é a beleza, é o talento, é a nota de banco, – e só está sujeito à exploração da fraude o que representa um certo valor pecuniário ou moral. E é a fraude quem está dando a Castagneto a glória que a legitimidade lhe negou...

Pobre Castagneto! Sem ambições e sem tristezas, desprezando igualmente o dinheiro e a fama, amando apenas a natureza, a vida, a alegria e a arte, – pintando marinhas, como as aves cantam e como as roseiras dão rosas, por uma necessidade criadora e fatal, – esse belo rapaz nunca se revoltou contra a indiferença dos contemporâneos, porque foi sempre o primeiro a não dar valor às suas telas, "aos seus botes", – como ele dizia na sua gíria pitoresca.

Não havia aspecto do grande mar inquieto que lhe não inspirasse uma composição; e o pincel ia reproduzindo esses aspectos na tela, no papel, na tábua, em qualquer tampa de caixa de charutos, em qualquer prancha de grosseiro caixão.

A execução era rápida e maravilhosa. O pincel e a espátula criavam ali, num relâmpago de gênio, toda uma vasta massa de águas, animada de vida palpitante. Assim que ficava pronta, – ou quase pronta, porque Castagneto não tolerava os sacrifícios do labor demorado, – a marinha saía logo de suas mãos, passando para outras mãos, de amigos ou de indiferentes, vendida por qualquer coisa, ou cedida de graça, com essa liberalidade simples e afetuosa, que só pode caber em coração de boêmio ou ... de anjo.

Somente a morte veio interromper aquela prodigiosa produção incessante. O mar perdeu o seu melhor amigo, e a limitada roda artística do Rio de Janeiro perdeu o mais interessante dos seus tipos de boêmio.

Esgotada a nascente das formosas telas, o legado do pintor começou a valorizar-se. Esse valor cresceu tanto, que as telas verdadeiras já não bastavam para a procura, – e a fraude encarregou-se de renovar o milagre bíblico da multiplicação dos pães, copiando e recopiando os quadros em que fecundo pincel fixou a mobilidade das ondas largas, batidas de sol ou prateadas de luar, em suave arquejo ou em fúria terrível, cheias das oscilações das velas e dos mastros.

Esta mesma Gazeta, noticiando anteontem a descoberta das falsificações, e consagrando algumas linhas enternecidas à memória do pintor, perguntava: "Quando o amargurado Castagneto, que passava dias sem comer, poderia pensar que o falsificariam assim, vendendo-o por um preço extraordinário?".

Quando pensaria? nunca. Como pensaria no futuro quem nunca se preocupou com o presente? Ainda agora, se pudesse ter conhecimento do que se passa na terra, Castagneto não teria pesar nem indignação; levantaria os ombros, com aquele seu absoluto e olímpico desdém pelas coisas da vida, e não se encolerizaria contra a fraude, nem se orgulharia com a consagração. Apenas é possível que a sua infinita modéstia e o seu completo desinteresse experimentassem algum espanto: "Como?! ... pois é verdade que os meus botes valem alguma coisa?"...

Este exagerado progresso da mania de falsificar tem em si mesmo o seu corretivo. À medida que cresce a perícia dos falsificadores, cresce também a desconfiança dos compradores. Assim que se descobriu a falsidade da famosa tiara do Louvre, começou a pairar a suspeita sobre a legitimidade das outras preciosidades do museu. E por todo o mundo anda acesa a batalha entre a astúcia e a prudência, entre o gênio inventivo dos impostores e a cautelosa reserva dos clientes.

Todos os gêneros, – de arte, de indústria, de alimentação, de vestuário, de luxo, – estão desmoralizados. Os cambistas fazem tinir, repetidas vezes e demoradamente, sobre a aba do balcão, as moedas que lhes oferecem; os prestamistas não adiantam um vintém sobre uma jóia, antes de um demorado estudo; quem pede a um garçon de confeitaria um cálice de licor, examina logo o rótulo da garrafa, com uma chispa de má vontade no olhar; quem contempla uma bela senhora no verdor da mocidade, pergunta logo a si mesmo se aqueles cabelos e aqueles dentes não saíram da oficina de um cabeleireiro perito ou de um hábil dentista; já nada, enfim, merece confiança; e, para evitar o logro, toda a gente trata de pôr em contribuição o exercício dos seus cinco sentidos desenvolvidos e apurados pela experiência e pela prevenção.

E, depois de trocada a moeda, de empenhada a jóia, de bebido o licor, de contemplada a beleza da senhora, e de exercida a ação combinada do olfato, do tato, do ouvido, do paladar e da vista, – ainda a gente fica com uma pequenina e impertinente pulga atrás da orelha e uma dúvida importuna dentro da alma...
Para os falsificadores, isso não é cômodo: esse alarme contínuo rouba-lhes a calma e envenena-lhes os louros da profissão. De maneira que, não obtendo jamais uma perícia completa e infalível, e sentindo que o solo lhes falta debaixo dos pés, os exploradores do crime arrepiam carreira, e voltam à pratica dos antigos dolos, que, com a sua ingênua simplicidade, ainda podem dar resultados ótimos.

Vede o caso das estampilhas. Para falsificar treze mil contos de estampilhas, a quadrilha seria forçada a adquirir maquinismos complicados, a tentar experiências dispendiosas, e a comprometer na incerta aventura um vasto capital de dinheiro e de tempo.

Quando as estampilhas estivessem prontas, – como escapariam as suas imperfeições à argúcia dos peritos? O microscópio revelaria o desvio de um micromilímetro em qualquer linha de desenho: e é sabido que nunca a mão humana traçará dois desenhos perfeitamente iguais, – como não há duas folhas perfeitamente iguais na copa da mesma árvore, nem dois cabelos perfeitamente iguais na cabeça do mesmo homem. A aventura seria arriscada. Mais valia procurar nos antigos e excelentes processos da ladroeira os lucros que o exercício das artes modernas não podiam assegurar com infalível certeza.

Foi o que fizeram os avisados meliantes. Para que fabricar estampilhas falsas, – se aquela formosa e opulenta Casa da Moeda, de portas tão largas e de tão fácil acesso, com sentinelas tão mansas e cofres tão fracos, guardava dentro de si tantos milhões de estampilhas autênticas, legítimas, confirmadas, conferidas, chanceladas, e verdadeiras como a própria Verdade?

Treze mil contos! É força confessar que a empresa foi audaz e brilhante... E, se pensarmos que grande parte desse estoque de estampilhas já foi trocado por muito bom dinheiro, tão bom e tão verdadeiro como elas; e, se pensarmos ainda que o pálio salvador do habeas-corpus, bandeira-da-misericórdia de todas as espertezas, não deixará de cobrir os empreiteiros desse colossal negócio, facilmente reconheceremos que andaram bem avisados os que preferiram lançar mão de valores reais a fabricar valores suspeitos.

Não há falsificação que afinal não seja descoberta. E todas as malícias e todas as sutilezas infernais da fraude acabam por ser apenas a glorificação do que é legítimo e puro.

Castagneto lucrou com a esperteza dos impostores. Os possuidores das suas marinhas autênticas vão agora olhá-las e prezá-las com redobrado amor. Os bons vinhos só começam a parecer verdadeiramente bons, quando cotejados com as zurrapas que pretendem concorrer com eles; e as belas mulheres, de uma beleza simples e nua como a própria Natureza, só começam a parecer verdadeiramente belas quando postas ao lado das belezas artificiais, devidas à colaboração do carmim, da tintura circassiana, do khol, das dentaduras postiças e dos chumaços de algodão.

OLAVO BILAC (1904)

 

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Texto:
Olavo Bilac (1865-1918). Crítica e fantasia, Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira, Lisboa, 1904, p.213-220.